3 de dezembro de 2013

FC Porto: Consistência, coerência e estabilidade procuram-se...

À entrada para o segundo terço da Liga ZON Sagres, os tricampeões nacionais ocupam a terceira posição (24 pontos), a dois pontos de Sporting CP e SL Benfica (após ambos terem ficado há umas jornadas atrás a cinco pontos dos dragões). Em termos europeus, a prestação tem sido medíocre: apenas uma vitória (frente ao FK Austria Wien) e cinco pontos conquistados em outros tantos jogos. Ao fim de cinquenta e quatro jogos a contar para a liga portuguesa, a equipa nortenha perdeu pela margem mínima em Coimbra frente à Académica. Nos últimos três jogos, o FC Porto perdeu sete pontos em nove possíveis (dois empates frente a Belenenses e CD Nacional e uma derrota frente aos estudantes).

Se quisermos recuar uma época, à décima primeira jornada, o FC Porto tinha 29 pontos (mais cinco que esta época), estando em igualdade pontual com o SL Benfica na liderança do campeonato. O Sporting CP ocupava a modesta nona posição, a dezoito pontos dos dois grandes rivais. Enquanto Jackson Martínez somava já dez golos (logo seguia-se James, com sete) na temporada transata, em 2013/14, o ponta de lança colombiano possui oito tentos, sendo de longe o melhor marcador dos azuis e brancos (o segundo é Josué, com quatro golos). Algo que claramente não se adequa ao historial nem aos objetivos do FC Porto propostos para esta temporada. Algo que é surpreendente, já que o FC Porto não costuma falhar nestes momentos. Mas o que tem originado esta quebra de rendimento e provocado exibições muito cinzentas? 

Extremos, essa grande dor de cabeça

Ao olharmos rapidamente para o plantel portista, retiramos alguns dados relevantes para uma análise mais detalhada. Com as saídas de João Moutinho e James Rodríguez, duas pedras basilares dos azuis e brancos nas últimas temporadas, no passado verão para o futebol francês, o futebol portista perdeu qualidade, sobretudo do meio campo para a frente. O ponto fraco da equipa orientada por Paulo Fonseca cinge-se às alas. Quando vemos numa grande competição como a UEFA Champions League os dragões trocarem Ricardo Pereira por Licá, verificamos que esta equipa está mal estruturada e que faltam opções com qualidade para uma equipa que se assume como candidata a todas as competições nacionais e que quer fazer boa figura na Europa do futebol. Varela é indiscutivelmente o melhor extremo que o FC Porto tem atualmente. E percebe-se esta quebra de qualidade quando olhamos para o passado e vemos que passaram pelo Dragão Hulk, James ou até mesmo Cristián Rodríguez, jogadores que colocaram quase sempre o internacional português como ator secundário. Licá continua muito "verde" para jogos desta intensidade e ainda não convenceu os adeptos portistas. Ricardo é jovem e tem aprendido com esta primeira experiência na liga milionária, precisando ainda de crescer para atingir o nível desejado. Kelvin, o herói da época 2012/13, ainda não foi utilizado esta temporada para a liga, tendo somado algumas presenças pela equipa B dos azuis e brancos. Juan Manuel Iturbe foi mais uma vez emprestado no início da temporada corrente (depois de uma pré-época muito positiva), aos italianos do Hellas Verona FC. Há ainda Josué, que tem jogado, ainda que adaptado, a extremo direito. Vamos por as coisas no seu devido lugar: Josué nunca foi extremo e não apresenta qualidade para desempenhar com sucesso essa função. O ex-jogador pacense flete muito para o meio, deixando o corredor livre para Danilo, que acaba por não ter apoio. Muitos nomes, pouca qualidade. Já para não falar de Marat Izmaylov...

Depois de alguma conversa nas últimas semanas, esta terça feira confirmou-se que Ricardo Quaresma vai mesmo regressar ao Estádio do Dragão já no próximo mês de janeiro, de modo a reforçar uma das principais lacunas dos dragões. O contrato será válido para os próximos dois anos e meio, sendo que apenas falta acertar alguns pormenores relativos à rescisão de contrato com o Al Ahli do Dubai, o seu atual clube, para que seja oficializada esta contratação pelos azuis e brancos. No entanto e, apesar de toda a expetativa que este regresso possa provocar nos adeptos do FC Porto, eu coloco algumas reservas por vários motivos que a seguir vão ser referenciados. O Mustang não joga desde maio passado e em junho foi submetido a uma cirurgia no joelho direito, pelo que a sua condição física não irá, em princípio, permitir um regresso à velocidade da luz do internacional português aos grandes palcos. Para além disso, não sabemos em que estado mental se encontra o internacional português (que já conta com trinta anos). Porém, penso que os adeptos portistas podem dar uma grande ajuda na recuperação deste jogador que quando se apresenta no máximo da sua forma, torna-se uma autêntica dor de cabeça para as defesas adversárias. Considero ainda outro aspeto, relacionado com o insucesso nas suas últimas aventuras pelo estrangeiro. Quarema saiu da cidade Invicta no final da época 2008/09 e, desde aí, nunca mais foi o mesmo. Em Itália, o jogador formado em Alcochete não conseguiu impor o seu futebol. Durante essa estadia em terras transalpinas, chegou a ser emprestado ao Chelsea, mas a sorte não esteve do seu lado. No Besiktas foi idolatrado pelos próprios adeptos, mas acabaria por sair pela porta pequena. Tudo isto até ao momento em que aterrou nos Emirados Árabes Unidos, onde permaneceu até hoje.

Resumindo, a direção liderada por Pinto da Costa começa aos poucos a perceber um dos principais erros cometidos durante a pré-temporada. Não deixa de ser curioso a aposta continuada dos dragões no regresso de jogadores que já passaram por aquela casa (agora Quaresma, antes Lucho). E recorde-se que a vinda do argentino ocorreu numa altura em que Vítor Pereira estava debaixo de fogo e a sua equipa encontrava-se a alguns pontos da liderança do campeonato. Ainda assim e, olhando para os pontos que considerei anteriormente, penso que continua a faltar qualidade nas alas. Continua a faltar alguém que desequilibre, seja criativo, que baralhe os adversários com mudanças de velocidade e que entre de caras no onze. Alguém que seja decisivo nos momentos chave, quando a equipa não produz o desejado. Ou o clube nortenho investe no mercado de inverno na aquisição de um extremo com alguma experiência e qualidade ou então opta por resolver o caso com o russo Izmaylov (ninguém soube mais novidades), recuperando também Iturbe e Kelvin. E tudo isto porque considero que Quintero tem é de atuar no meio, à frente dos dois médios. Só aí poderá expor o seu jogo. O colombiano não parece ter o mesmo "dom" que o seu compatriota James teve ao adaptar-se à ala. O ex-Pescara vem apresentando momentos em que se encontra distante do jogo e prefere mais arriscar do que jogar para o coletivo. 

Problemas alastram-se a todos os setores; Irregularidade exibicional é gritante

Como resultado do que foi dito, a equipa tem apresentado uma qualidade de jogo que se revela demasiado curta. Antes de passarmos à referência ao meio campo e à defesa, uma nota para Paulo Fonseca que praticamente não tem usado Ghilas (as notícias dão conta de que metade do seu passe foi adquirido por 3,8 milhões de euros, um valor inacreditável pago a um clube que desceu na época passada!), Reyes, Herrera, Ricardo Pereira ou Carlos Eduardo, algumas das contratações para esta época e que afinal de contas não vieram resolver os problemas existentes. 

Mas voltando aos restantes setores, comecemos pela defesa, que tem comprometido com alguns erros individuais (Mangala no Restelo, Danilo frente ao FK Austria Wien e Otamendi em várias partidas). Um quarteto defensivo que tem apresentado pouca articulação entre si, erros posicionais graves e muita falta de concentração. Continuo a achar, no entanto, que é o setor mais forte do FC Porto. Muitos adeptos defenderam a entrada de Maicon para o onze em detrimento de Otamendi, algo que tem sido efetuado ultimamente. No entanto, o FC Porto acaba por perder um jogador que, apesar dos erros infantis que tem cometido, é uma mais-valia a sair a jogar. Já na zona intermediária, Fernando tem sido um jogador vital (apesar de por vezes ter certos jogos que lhe correm menos bem), garantindo força, apoio aos centrais nas tarefas defensivas e alguma ordem na casa. E veja-se que o brasileiro naturalizado português gosta muito mais de jogar sozinho e explorar terrenos de uma forma, solitária, em vez de ter um parceiro a seu lado. Mas o grande problema neste setor põe-se do seguinte modo: quem é o médio que acompanha Fernando? Já foram usados vários jogadores (Herrera, Defour, Josué), mas nenhum deles consegue estabilizar. Lucho, ao atuar como um médio mais avançado no terreno (uma posição fruto da alteração do tridente na zona intermédia), faz com que se aproxime mais do ponta de lança do que propriamente dos médios que iniciam o processo ofensivo e constroem a partir de trás, dando liberdade e autonomia aos laterais nas suas tarefas (ofensivas e defensivas). Com isso, o argentino tem tido pouca bola (alo que não é compatível com as suas características, já que é um jogador cerebral) e que não favorece o jogo entrelinhas que Paulo Fonseca pretende implementar. No ataque, os extremos já foram referenciados acima com destaque especial. Quanto a Jackson, é aquilo que se sabe: um jogador de grande qualidade (um dos craques da formação portista), com um remate potente e força no jogo aéreo. Esta época tem tido mais oportunidades que golos marcados, algo que tem irritado os próprios adeptos. Falta de confiança? De motivação, por não ter saído para um clube “maior” no último defeso?

Num jogo, o FC Porto é capaz do melhor e de pior. Tanto cria inicialmente uma enorme quantidade de oportunidades e pressiona de forma consistente e com critério o seu adversário como acaba por, mais tarde, adormecer e permitir facilidades na sua zona mais recuada. Exige-se alguma regularidade a esta equipa, um aspeto que não tem estado presente e que contribui para exibições algo sofridas e com constante incerteza no resultado. E isto tudo porque este FC Porto é muito diferente das equipas que André Villas-Boas e Vítor Pereira tiveram nas suas mãos. É que num espaço de poucos meses, a equipa ficou órfã de Hulk, James, Moutinho, Álvaro Pereira, Guarín, etc. E estas saídas (que representaram uma quebra significativa) deram lugar a jovens, levando o clube a investir de forma a pensar já no futuro. Mas este plano tem riscos óbvios: é necessário tempo de treino para aperfeiçoar as qualidades desses jogadores mais novos. E num clube como o FC Porto, essa política normalmente não funciona muito bem sem que haja alternativas que garantam sucesso, estabilidade. Nos tempos de AVB (e também de Vítor Pereira), o FC Porto ia introduzindo aos poucos na sua equipa jovens valores como James, Souza, Atsu ou Castro. Mas paralelamente havia uma equipa formada por jogadores de grande qualidade e que foram garantindo sucessos a nível nacional e internacional (principalmente na época com o atual técnico do Tottenham Hotspur).

Discurso e (algumas) opções incoerentes

Ao repassar a conferência de imprensa de Paulo Fonseca na antevisão do duelo deste fim de semana com a Académica e compararmos as declarações após o encontro, verifica-se que não há coerência entre as ideias defendidas pelo treinador dos azuis e brancos. Antes de sábado, Fonseca tinha afirmado que «bastaria uns retoques na finalização para que o campeão se tornasse uma equipa perfeita.» Concluiu o seu discurso afirmando que «Ainda não vi muitas equipas a fazerem o que temos feito. É verdade que de forma algo oscilante, sim. Mas com a intensidade que pomos no jogo, isso é normal, não pode durar 90 minutos. Faltam resultados, mas é notória a evolução». Passado o jogo em Coimbra, verificou-se claramente que não tem havido nenhuma progressão significativa no modelo de jogo portista. E Paulo Fonseca passou a defender essa ideia, afirmando que faltou «determinação e agressividade.»

Penso que um dos grandes pontos negativos do técnico portista passa pelo seu discurso. Não se pode afirmar que num dia a equipa está perto da perfeição e dias depois questiona-se tudo: a atitude, a intensidade, os aspetos técnicos, táticos, físicos, mentais, etc. A mensagem não está a ser transmitida da melhor maneira para os jogadores e isso acaba por ter consequências nefastas no seio da equipa. Outra temática a ter em conta prende-se com o último jogo e com as alterações táticas implementadas com o decorrer do mesmo. Num só jogo, Fonseca usou três sistemas distintos. Iniciou com o 4-3-3, sistema que tem sido predominantemente utilizado (2+1), sendo que as grandes novidades passavam pela inclusão de Quintero na extrema esquerda e de Josué ao lado de Fernando. Com a entrada de Licá na etapa complementar, o português começou na ala mas acabou por se juntar a Jackson na frente do ataque como uma espécie de segundo avançado, passando para um 4-4-2, com Varela a baixar um pouco no terreno, Josué a transitar para a esquerda e Lucho a fazer companhia no miolo a Fernando. Finalmente, os minutos finais, marcados pela tentativa desesperada em chegar ao golo da igualdade (já com Carlos Eduardo em campo), trouxeram um inovador 3-4-3, com Alex Sandro e Danilo a terem liberdade para subir nas suas respetivas faixas laterais. Posto isto, o FC Porto mostra-se uma equipa desorientada, aparentemente sem rumo e em queda. Quando se tenta usar esquemas alternativos que não são treinados com tanta frequência (supomos nós), normalmente os resultados não costumam aparecer. E é o que se tem visto. O ex-treinador do Paços de Ferreira tem de ser mais fiel ao modelo de jogo que implantou no início da época e com o qual tem trabalhado desde o início da pré-época. Há que trabalhar a apostar nos recursos que tem à sua disposição, corrigir eventuais erros táticos e precaver todas as situações inerentes ao jogo com o cuidado máximo. Se não existe uma total confiança nos métodos adotadas, alterar o modelo tático (e a filosofia de jogo) é solução. Uma situação que devia ter sido pensada já anteriormente.


Para finalizar a análise à situação atual do campeão nacional, é claro que não coloco todas as culpas desta fase negativa em Paulo Fonseca. Existem jogadores em sub-rendimento e que têm de produzir muito mais. O FC Porto apresenta problemas claros e identificados, mas fases menos positivas todas as equipas têm.  No entanto, a situação preocupa bastante jogadores, treinadores, dirigentes e, principalmente, os próprios adeptos, que tem manifestado de forma veementemente nos últimos dias sobre a continuidade de Fonseca.  A pré-época foi mal planeada em termos de contratações e urge a necessidade de os dragões mexerem rapidamente no próximo mês. E veremos se não mexem também ao nível do comando técnico. Avizinha-se um duelo no próximo fim de semana frente ao SC Braga, uma equipa que não vive os seus melhores dias em termos de resultados e que precisa de pontuar para não perder de vista os lugares europeus. Esta semana pode ser muito importante no futuro dos dragões. Se ganharem, Paulo Fonseca ganha algum oxigénio e as críticas serão temporariamente suprimidas. Caso contrário, veremos o que a administração do clube irá fazer sobre o futuro de um ativo que tem contrato válido por duas temporadas.

Por Ricardo Ferreira

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