Com
o término do Mundial e com a vitória da seleção da Alemanha diante da
Argentina, não há quaisquer dúvidas que esta edição da competição ficará
perpetuada no mundo do futebol internacional como uma das melhores de sempre.
Todavia, como em praticamente todas no desporto global, existem sempre os
denominados “flops”, isto é, as desilusões, sendo estas maioritariamente
provindas do continente europeu. Seleções como Espanha, Inglaterra e Itália,
anteriores campeãs mundiais, e Portugal caíram de forma justa e precoce perante
seleções americanas que, atuando no seu clima e com essas condições dispostas
para serem potenciadas como vantagens, só se podem queixar de si próprias por
não terem outro desfecho no final desta Copa, tal como Alemanha e Holanda.
Começando pela seleção portuguesa, que
acumulou uma vitória diante do Gana, um empate diante dos Estados Unidos e uma
copiosa derrota contra a posterior campeã Alemanha, foi uma equipa bastante
focada no melhor jogador do mundo da atualidade: Cristiano Ronaldo. Existia
claramente um rótulo de que Portugal era Ronaldo e mais 22 jogadores. Foi uma
das grandes debácles em relação a outras forças cujo coletivo se superiorizou.
Para além deste fator, a deficiente condição física com que a maioria dos
futebolistas se encontrou (inúmeras lesões musculares e substituições forçadas
contribuíram para a delimitação do raio de ação do selecionador), a
convocatória que suscitou bastante discussão nos cafés do país (Anthony Lopes,
Cédric Soares, Rolando, Adrien Silva, Ricardo Quaresma, entre outros, ficaram
de fora) e a parcimónia em que o selecionador Paulo Bento se mergulhou (apenas
efetuando alterações que pareciam óbvias a olho nu no encontro em que tudo se
encontrava parcialmente decidido, especialmente a ausência de William Carvalho
diante da frouxa postura de Raúl Meireles e Miguel Veloso nos encontros que
antecederam o terceiro) são outros dilemas que estalaram nesta competição.
A seleção espanhola, campeã em título,
vinha de uma larga derrota diante do Brasil na Taça das Confederações e, apesar
desta, era considerada uma das grandes favoritas ao êxito maior no Maracanã no
dia 13 de julho de 2014. Puro engano, pois duas derrotas a abrir a campanha
(1-5 diante da Holanda e 1-2 contra o Chile) colocaram os ibéricos de uma só
assentada de fora da Copa. A base dos êxitos na África do Sul em 2010 e na
Polónia/Ucrânia em 2012 permanecia e, tal como na equipa lusa, não exibiu a
flora das suas capacidades devido já ao acumulado desgaste pela entrada na casa
dos 30 anos da maioria dos atletas mas com alguns elementos (Juan Mata, David
Silva, Jordi Alba ou Diego Costa) que quebravam com esta base mas que não
conseguiram arrastar consigo os restantes companheiros. O tiki-taka que
perdurou nestes últimos quatro anos foi superiorizado por uma cínica estratégia
orquestrada por Van Gaal e pela renovação coletiva à qual conduziu e por um
Chile que mostrou as ganas e a dinâmica ofensiva da qual os espanhóis careciam.
Com uma escola de talentos de larga escala (Ander Herrera, Iker Muniain, Jesé
Rodríguez, Cristian Tello, Thiago Alcântara, entre outros), o futuro parece
brilhante para os espanhóis, contudo não com Vicente Del Bosque, selecionador
que, no passado, acumulou sucessos tanto em clubes como em seleções mas cuja
metodologia suscita interrogações nos críticos.
Passando à seleção italiana, campeã em 2006
na Alemanha, esta viu-se enquadrada no grupo da morte assim como a seleção
inglesa, afigurando-se como teorica e historicamente favoritos em relação às
seleções americanas do Uruguai e da Costa Rica. No jogo inaugural deste grupo
de ambas as coletividades, foi a primeira a levar a melhor por 2-1 num encontro
que foi bem repartido, entre as rápidas movimentações dos jovens irreverentes
constituintes da seleção britânica e a lenta e paciente construção da veterana
seleção a partir da linha defensiva. Contudo, os restantes encontros destas
duas seleções revelaram-se surpreendentes, com Uruguai e Costa Rica a vencerem
Inglaterra e Itália respetivamente. Com um Luís Suarez literalmente endiabrado
e um inspirado Keylor Navas na seleção dos ticos, foi inoperante o esforço dos
habituais tubarões do Velho Continente (Inglaterra, estava assim, fora do Mundial)
mas com a Itália ainda a permanecer com uma réstia de esperança de
qualificação, apesar de estar longe de cativar os mais céticos. Esta réstia foi
logo neutralizada pelo herói do título nacional do Atlético de Madrid, o
central uruguaio Diego Godín, que desnudou as gradualmente mais evidentes
debilidades organizativas e ofensivas da seleção de Itália, que, mesmo
defensivamente, nunca teve armas para lidar com construções dinâmicas de
velocidade elevada, de circulação pragmática de bola e de rápidas transições,
explorando os espaços deixados pelos possantes defesas transalpinos e
produzindo com regularidade através desse parâmetro, levando à demissão do
treinador Cristiane Prandelli que foi mais perspicaz que os selecionadores das
seleções supramencionadas e que se apercebeu que é necessário um novo
comandante para levar a cabo a transformação italiana, cujo futebol se encontra
ultrapassado e acorrentado na década passada. Quanto à Inglaterra de Roy
Hodgson, foi uma que efetuou a regeneração atempadamente mas que não conseguiu
construir um coletivo válido que lhe permitisse chegar mais longe, sobrando
para o Europeu de França de 2016 grandes esperanças quanto a esta seleção que
apresenta valores de grande qualidade mas de escassa experiência quanto a
encontros internacionais.
Exceto a Alemanha e a Holanda, deduz-se
destas aferições que existe um desmoronamento das teorias táticas privilegiadas
pela seleções advindas de solo europeu, com Portugal a não dispor de elementos
que permitam a aplicação de um 4x3x3 dada à ausência de pontas-de-lança
profícuos na lista de possíveis escolhidos para este grupo e da falta de rigor
defensivo por parte dos laterais existentes, dada à larga propensão ofensiva
dos flanqueadores do século XXI e escassez de virtudes de marcação e ocupação
de espaços; com a Espanha a possuir as pedras basilares dos seus precedentes
êxitos sem o fulgor de outrora e a não corresponder às expectativas dos seus
apoiantes; com a Itália a possuir rotinas bastante antiquadas para o futebol
aplicado neste momento e a necessitar de uma reformulação tática em termos
ofensivos (falta de posse com objetividade e de elementos capazes de fazer a
diferença potenciando as lógicas elaborações do miolo) e, consequentemente,
quanto à organização defensiva (linha defensiva muito avançada e lenta em
campo, com bastante espaços a serem explorados, e falta de apoio no processo
defensivo por parte dos centrocampistas); e com a Inglaterra, com um jovem rol
de excelentes recursos, a precisar de tempo e
experiência para consolidar os processos preconizados pelo seu técnico e
a exibir potencial para um futuro interessante. Muitas mudanças devem ser
realizadas, pensadas e repensadas para que as seleções europeias voltem a
arrecadar a hegemonia do futebol mundial, com o Europeu a ser uma montra para
se verificar se as devidas correções foram tomadas ou não. Caso permaneçam
estas lacunas, confirmar-se-à uma crise não só sócio-económica e política mas
também refletida no desporto, mais concretamente no desporto rei.
Artigo escrito por: Lucas Brandão
Imagens: gettyimages.com
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